sábado, 21 de novembro de 2009

O mistério das comidas.

Não sei cozinhar. E eu penso nisso às vezes. E esse é um dos meus dilemas que empurro com a barriga. Não saber cozinhar é praticamente não saber sobreviver. É admirar o cheiro da comida saindo da panela como se fosse um...um... desenho do Picasso! Que você admira mas não sabe fazer, que está sendo feito para você com toda uma penumbra de criativadade, atenção, e mistério.
Não saber cozinhar me fez afirmar:
"Eu admiro o que não sou capaz de fazer, incrivel!"
Segundos depois, me fez entrar em crise:
"Mas, se eu admirasse o que não sou capaz de fazer, eu admiraria também qualquer coisa vinda ou vinculada a exatas, não?"
e terminei desafirmando tudo por conta do que eu nunca gostei, matemática.
Quando eu era menina, pensava que cozinhar seria resolvido com livros de receita, tive ainda um plano de comprar um caderno e entrevistar minhas avós anotando tudo que eu queria aprender a cozinhar, minha missão seria começar do arroz e terminar nos grandes banquetes de ceias natalinas. Minhas duas avós são cozinheiras de mão cheia (e as duas possuem temperos deliciosos e diferentes!) o que explica como somos moldados pela cultura e não pela genética (antropologia na veia gente!) e o que me serve de consolo.
Contudo, como eu disse no começo, fui empurrando com a barriga e não inventei meu caderno, não coloquei o plano em prática, (nem em teoria, ficou em sonho) o que não fez com que os anos deixassem de passar e eu me entregasse ao cruel destino de afirmar: "Não sei cozinhar."
Não foi com um livro de receitas, (das poucas tentativas de cozinhar alguma coisa por conta própria) que descobri o mistério das comidas. Foi prestando atenção naquilo que eu mastigava e que sustenta meu corpo.
Fui surpreendida, é que a comida mesmo sendo calculadamente feita por, por exemplo, três pessoas, e mesmo sendo a mesma comida, elas possuem gostos diferentes.
Comida, passou a ser para mim então, mais que só comida. Mais que só quente ou friamente calculada, passou a ser uma arte! Adquiri então, uma verdade absoluta sobre o que eu não sei, afirmando algo que não era meu, mas que serviu para mim:" Cozinhar é uma arte."

(Fê tem várias teorias sobre as comidas, e afirma sem se oferecer a fazer, que sabe fazer macarrão!)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Na ilha Fê(cunda)


Vivo, não aparentemente, em uma ilha. Uma ilha de pensamentos, de conceitos, de ideias, de vontades, de devaneios. Nessa ilha ninguém pisa. Nessa ilha, eu, livremente, passeio pela vegetação sem horário de chegada, sem horário de partida. Faço chover em um pestanejar, e ensolarar num simples estralar. Apesar de viver em uma ilha, descobri que sou a ilha! E que mesmo assim, preciso de liberdade, eu morro de vontade! E como me é pernicioso ser livre por aí, vou no meu barco voador.

Meu barco, pequeno barco flutuante de madeira ou sem motor. Dessa forma, consigo estar adentrando em muitas praias, posso rechaçar, posso dissuadir, ser unânime! E brinco, falo, me impressiono, porque tudo é novidade. Eu não desço do barco. O meu negócio é embarcar nas viagens. Fico ali sentada, com meu guarda-chuva, protegendo-me da luz demasiada, acho que todos nós devemos ter um pouco de sombra. Estar na penumbra, é o que há! Nessas praias, eu viajo feliz, e não há fadiga, nem injúrias o suficiente para me esgarçar. Acho que é sempre bom estar absorto. É preciso estimulá-los, criar apetite.
As vezes, aparecem indivíduos segurando nas bordas do meu barco, e é aquela fricção, eu até dou umas olhadas, mas sinceramente? Tenho medo de perder o entusiasmo, e com meu guarda-chuva cuido logo de bater nas mãos que seguram, e me desfaço com volúpia, é que me parece meio frívolo ficar hipnotizada. "São só pequenas sereias, me digo." E continuo minha jornada. Volto para ilha cheia de novidade, cheia de picuinhas, meticulosidades que acrescentam. E planto, limpo e revejo as velhas vegetações. Também, de vez em quando, indivíduos vem de paraquedas, todavia, com meu estilingue me preparo para atirar, defendendo minha ilha, minha liberdade de expressão, minha espontaneidade caríssima nos tempos de hoje. "São piratas?", me pergunto. "Não sei, mas aqui adentrar? Não! Porque meu tesouro está enterrado.", é que...sou pitoresca ainda, e isso é ouro!
Desconfio, em cima de uma árvore, me refrescando, de que um dia talvez eu não consiga resistir por muito tempo tantas ameaças. Mas, enquanto só desconfio, farei chover e ensolarar em um pestanejar.
Uma ilha...e como me é pernicioso ser livre por aí, vou no meu barco flutuante com o guarda-chuva do lado, porque luz demais, me assombra.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Meu príncipe entrevado.

"- O senhor vai ganhar de novo, né? Por que não posso andar para trás?!"
- Porque na dama só anda para frente Nanda."
O banheiro está ensopado. A casa, uma parentada. A dor de cabeça passou. E por mais que não fizesse sentido nenhum para mim chegar perto de você agora, fui obrigada. Não era você, estava tão inchado, ainda bem que não parecia você, eu já sabia que não ia ser você lá. O Eduardo, tadinho, nunca quis te ver desde que soube, e vomitou quando chegou perto de ver, ele também sabia que não encontraria você. As mãos ainda eram suas, resolvi olhar só para elas,
"O senhor acerta bem no meio das latinhas! Eu não consigo! Esse estilingue tá quebrado?"
"Mira no meio Nanda, assim ó!"
cheias de marcas, foram tantas agulhadas, tantas tentativas. Nem parece, mas acabou finalmente o nosso viver daquela suspeita. Posso me lembrar de quando suspeitamos da notícia, pela primeira vez.
Aquele dia deixei de me ver como filha, estávamos fingindo que dormíamos, e ela me perguntou se eu suspeitava, senti como se o que saísse da minha boca fosse sempre algo sensato e sincero, e eu respondi dessa vez com medo. Ela me contou que você a vida toda foi tão carinhoso, e choramos, quando percebemos que você tivesse dado lembranças boas na infância triste que teve.

Para falar a verdade, eu só chorei lembrando de toda a luta que foi desde que descobrimos até aqui, só chorei mesmo porque lembrei do começo, da sua teimosia, você não queria saber e insistia que ficar vivo pertencia mais a sua vontade do que ao que era realmente verdade, depois, eu só chorei por conta do cheiro do açougue, das oferendas de refrigerante e salame, das partidas de estiligue e tabuleiro de damas. Por último, e só porque não tem jeito, vou chorar por causa do "toda vez ".
Se foi, ouvir sua voz querendo mais sorrir do que sair, seu jeito de kiko (do programa do chaves) e o que eu não vou receber. Um telefonema no meu aniversário com aquele barulho de Br no fundo,
"Oí? Está me ouvindo? Eu não esqueci não, viu? Fica sossegada porque a caixa de bombom já está a caminho!"
Ô vovô...que eu consiga guardar seu sotaque na memória, que eu não me esqueça.

domingo, 8 de novembro de 2009

Até mais ver...

Não voltarei para casa. Aquele dia, matei, morri, e suicidei todo um processo. Não voltarei para casa. Não do jeito que saí. Não na fome que sentia. Nem nunca mais vou me despedir ferida. Não vou deixar de amar quem em casa continua. Do jeito que eu sonhei, o que vivemos, permaneceu com um “Para sempre” e seguiremos felizes. Não vou esquecer de nada, porque esquecer é a coisa mais feia do meu mundo. A única tragédia é que não sinto mais tanto, e por mais trágico, foi só assim que finalmente ganhei uma bóia e parei de me afogar. E foi assim que deixei para sempre (e sem querer) de sentir a sensação: casa, mesmo que eu volte por lá.
O jeito sozinha, é basicamente cambalear ali e aqui, com o guarda chuva em pé, no foco da corda, que ás vezes é bamba. Equilibrar é fundamental, e às vezes sambar na frente de todo mundo na rua também. Aconselho continuar na bolha enquanto o instinto for seguro. Só espoque quando sufocar. Quando der, telefone, chore, grite, (e escreva sempre), de vez em quando caia no chão com tudNegritoo no porre, coloque óculos escuros e não dê satisfação para ninguém, excite-se com o que a universidade anda pedindo que leia. E aproveite sua idade e os mais velhos que tem cara de serem ex- porras loucas da vida para chingar o mundo por ter te estragado, eles se incham, eles se veem. Não se preocupe em chutar a porcaria da porta que não sabe se fecha ou se abre, ninguém está vendo, e depois, gargalhe alto e durma em seus pensamentos . Isso, é o que eu chamo de servir.
(para alguma coisa)


(Tô viva gente!)

A verdade, a pura verdade.


Você nunca vai entender minha tamanha maldade, porque você é uma pessoa que a bondade vem da confiança.
Eu, nunca confiei inteiramente em nada, e isso vem, claro, da minha própria desconfiança de que tenha alguém tão mau quanto eu.
Desconfio do que você fala, ponho a culpa em você em cada uma das suas viradas de costas para mim, e deduzo que meus exageros e vontades ás vezes postos nos meus discursos, nos seus também existam. Mas, acredito, e te subestimo, que seus pontos de vista devem ser um pouco menos envenenados que os meus.
Nem sinto remorso, eu me acostumei com a minha hipocrisia. Já me acostumei com a falta de verdade e a presença do fingimento paciente.
Sua boca abre. Parece que é tão inocente que talvez não perceba que esteja transmitindo nas conversas sua verdade. Não é pura! Não é a minha, e por favor, não é nada além...é sua boca, e ela fecha.
É por causa da minha maldade percebida, e sua bondade inconsciente, que a verdade pura nunca vai existir. Que as versões sempre vão substituir o puritano lugar. Que eu nunca vou deixar de desconfiar.
No mundo vai ser sempre assim. Uns maus, uns bons, e uns. Menos nós dois.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Afã

Quanto tempo falta para eu nunca mais ser assim?
Quanto tempo falta para eu simplesmente dizer sim?
Quanto tempo falta para eu abraçar a liberdade sem receio?
Quanto tempo falta para eu ganhar dinheiro?
Quanto tempo falta para eu cortar essa corda ,e não pegar essa onda, que me amarra?
Quanto tempo falta para eu descer dessa árvore sem cair?
Quanto tempo falta para eu finalmente sentir, já que me conheço?
Quanto tempo falta para eu me conformar de vez?
Quanto tempo falta para eu, por começo entender?
Quanto tempo falta para esse caos "adolecêntico" passar de vez?
Quanto tempo falta para eu parar de confundir que perceber serve para temer menos e aprender mais?
Falta tempo quando...quando falta tempo...esse tempo presente, esse tempo falta.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Cruz Vermelha.

Entre a frivolidade da juventude, decidiu ser médico, quando do corpo já entendia, decidiu ser turista. E turistou onde não havia gente entendida como ele. Conquistou a confiança de muitos, e no fundo ansiava, não queria ser só doutor. Conheceu ela na porta da sala de cirurgia, conheceu apenas os olhos, o resto coberto de branco, outras vezes de verde.

Corria, com as vidas, e quem abria o caminho era a dona dos olhos, talvez uma enfermeira.
O certo era que nunca lembrava dela por conta da rotina, e somente nas emergências a via, somente naquele momento de euforia, de responsabilidade, de começar o que sabia.
Certo dia acabou-se as luvas, e foi isso que fez com que ele fosse buscar uma caixa na sala de cirurgia. Lá dentro, a moça levou um susto e ele também. Ele, porque pela primeira vez ela estava de rosto e de cabelo e não só de olhos e nem abrindo caminho. Ela, por acabar de ter pensado uma heresia. O doutor pôs-se a esquecer de luvas dias e dias, o que na primeira semana, provocou risos na enfermeira, e o que no final dela, preocupação com a memória alheia. Se eu dissesse que a enfermeira não entendeu que as luvas ausentes mudaram seu rumo, estaria mentindo. O doutor beijou-a, depois de quinze vidas salvas na semana, e a enfermeira, depois de treze empurrões nas portas para a ala de emergência, e foram dois, dois únicos e assustados desprevenidos beijos, que não precisaram mais de tempo, só de vida.
O esquecimento das luvas foi esquecido pela presença das mãos e os fantasmas que rodeavam o hospital tiveram o que suportar.
Não demorou muito e a guerra veio trazendo mais vidas, e menos tempo. Ela foi mandada para fora, cuidar dos homens corajosos da nação, ele foi mandado para dentro, com irrecusáveis propostas.
Em uma primavera, depois da bifurcação, a enfermeira recebeu uma caixa inteira de luvas pelo correio, dentro uma frase: "Quando a guerra terminar vou reconstruir meu jardim, se você ainda me amar...", fechou, não leu mais, e contou quantas luvas tinham, depois, viu só o final do bilhete "Abraços, o esquecedor de luvas."
"Caro doutor, sabe quantos salvei? Muito poucos em comparação aos que morreram. Vejo que as luvas não te fazem mais esquecer, e que pretendes criar flores, estou ávida para doar minhas mãos e plantar contigo. Abraços, a dona dos olhos."
Assinou como "olhos" porque sabia do que ele mais gostava. Quanto a não ter lido o bilhete inteiro, ninguém sabe explicar.
Os dois não eram mais dois, e estavam duas estações longe um do outro. Mesmo assim, eram bons amigos, possuíam boas lembranças e começaram a se comunicar por correspondência hospitalar.
Além dos comentários populares sobre uma moça firme e que sabia olhar, ele conseguiu encontra-lá, porque apesar dos horrores da guerra, ficou sabendo sobre a história de amor dela com um marujo muito corajoso que infelizmente morrera depois de salvar um amigo afogado.
Foi em um feriado religioso que se encontraram, na sala que se entrevistaram, nas escadas que sorriram, no quarto que se trocaram, e foi na varanda que deram uma tragada frustrada, uma gargalhada cheia, e já quase no jardim, que trocaram uma última vírgula sobre a guerra para por fim plantar as flores, que aliás, viveram coloridíssimas até o verão.

(Pediram um estória de amor.)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma vez era.

Acordava cedo com medo de perder tempo. Acreditava que devia aproveitar ao máximo cada minuto do sol no dia, isso porque considerava a noite um castigo em sua existência. Ao despertar, de pijamas, subia na janela e corria para a cozinha, achava sensacional não ir pela porta, de alguma maneira trocar caminhos, aventurava suas manhãs. Caminhando pelo corredor descalça, prestava atenção no silêncio do quintal vizinho, depois, pregava um susto na funcionária não desconfiada, e assim enchia a boca de sorriso, enchia a xícara de leite e raspava o chocolate.

Dobrado, o pijama ficava intacto na cama, quase livre, só de calçinha, a dona do próprio nariz caçava o que fazer.
Gostava de descascar mexerica, adorava a facilidade da casca se despir da fruta. Chupava o doce dos gomos, cuspia as sementes em uma competição frenética dela e dela mesma, e jogava o bagaço no corredor apesar de todos dizerem: "Não sabe comer mexerica! O bagaço é bom para o intestino!", imaginava então seu intestino segurando um buquê de rosas a espera de um bagaço de mexerica e sorria sozinha.
No quintal da casa procurava um novo formigueiro. Todos os formigueiros eram abandonados quando ela os visitava. "Eu queria diminuir.", dizia observando o buraquinho de mais um formigueiro conquistado e abandonado por ela, e que também jamais era conhecido por dentro.
Ao encontrar o paradeiro das formigas, dizia "Eu posso ajudar!" e trazia folhas, as quais as formigas nem se quer tocavam. "Bando de idiotas!" e destruía covardemente mais um reino. No fundo, ela só queria participar de alguma coisa.

Possuía muitas manias, logo depois do banho almoçava sempre na ponta e fazia questão de só almoçar se fosse na ponta. "Menina enjoada! Pode sentar aqui então! Quando crescer vai viver de pagar contas de restaurante, sabia?" dizia um intruso. Mas ela gostava da ponta. Na ponta se via todo mundo sem mexer a cabeça, na ponta não precisava estar se ajeitando por estar ao lado de alguém, na ponta ela virava rainha pois as outras pessoas deveriam passar certos pratos e temperos do meio, a ela.
Naquela época, só queria comer se fosse arroz e feijão. O arroz sempre primeiro, o feijão sempre por cima e misturava os dois, reconhecia que era um desperdício a organização inicial por causa da mistura do final, mas era mania, não achava sensacional quebrar manias como achava trocar caminhos. Adorava seu arroz e feijão, os dois sempre juntos. Talvez gostasse mesmo fosse de falar "Arroz e feijão.", era como se os dois se transformassem num caso de amor imediatamente. Em todos os seus almoços, era aquela história de amor pensada e comida. Não gostava de carne porque tinha preguiça de engolir, sentia a mesma sensação dos bagaços de mexerica. Não gostava de frango porque ouvira da irmã, que sairia por aí falando "galinhês". Então, de vez em quando colocava apenas o caldo das carnes, e farinha de puba, porque era durinha e fazia barulhos altíssimos, quando descobriu que ninguém além dela escutava, adorou.
"Só arroz e feijão? Você nunca vai crescer desse jeito, sabia?", lhe diziam sem saber que dessa forma ela comia arroz e feijão com mais gosto ainda.
Um dia trouxeram um tal de purê, amarelo, de uma tal de batatas que misturado com o arroz e feijão era uma delícia. Outro dia, uma tal de carne moída com batatas, por causa da carne quase não comeu, mas como viu que essa era fácil de ser engolida, gostou. Aos poucos, e sem que percebesse a menina abandonava o romantismo no prato.
Por último, vou relatar
dela no escritório. Deitava no chão e apreciava todos aqueles quadrados coloridos enfileirados na estante. Depois de muito respirar admirada e deitada naquele chão frio tinha a ideia de escalar a estante. Subia então, sentindo o cheiro dos livros de perto, encontrando algumas teias sem aranha, e lendo os títulos de cabeça virada em equilíbrio para não cair.
"Um dia essa estante vira, você vai cair daí! Ou ela vai cair em você!", alguém praguejava. Nunca virou. Nunca caiu. Talvez porque a menina prometera aos livros que os leria quando figuras lhe interessassem menos. Foi um trato com a dona estante. Um trato secreto. Nessa condição, escalava sem medo. A tardezinha enchia o tanque, colocava shampoo na boca e soprava bolhas que morriam rápido, imaginava ser uma sereia e de longe, via aquela aura, aquele brilho ao redor daquele pé de manga lá fora, então, se enchia de angústia pois sabia que a sessão medo ia começar. Não gostava da noite, achava a lua triste e as estrelas muito longe uma das outras. A noite não podia correr, não podia ficar descalça, não podia falar mais alto, qualquer barulho era um ladrão, e sobrava ficar quieta, imaginando monstros que só sairiam quando o sol voltasse. "Monstros não existem." alguém lhe lembrava, e por mais que ela quisesse acreditar, no fundo não arriscava.
Teve um dia que decidiu que cantaria quando sentisse medo, mas logo desistiu porque ela queria se esquecer do medo, e cantando sempre se lembrava mais, então, começou a escrever o que sentia. E nunca mais parou.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Quando só o complicado me sacia.

Ando. Emblematicamente pitoresca, volátil, inóspita às vezes (por defesa quem sabe...) , exdrúxula, e...nos pilares da existência... júbilo... Giro livremente como a ponta da esferográfica, te rechaço de pirraça. Dissuado-lhe por maldade. Causo meus próprios intempéries o que me deixa perniciosa, auto perniciosa. Dessa forma, acabo me excetuando, acabo me entregando ao unânime. Acabo quase que recôndita. E titubeio ávida atrás de porquês, atrás dos perdidos, atrás do que seja funesto. Tácita, me declaro genuína e coaduno em em-ble-ma-ti-ca-men-te: volátil.
(...)
Que voa, que evapora.







(Fê
tentando se entender, usando outro vocabulário, sacia ás vezes.)

domingo, 11 de outubro de 2009

Recôndito.

A acomodação me abraça, acho que a acomodação, inclusive, é a única que sente alguma coisa por mim que eu corresponda sem me fazer muitas questões. Eu a amo será? Dizem que o amor não se explica...A questão fundamental e interessante é que cada pensamento futurista, a cada aperto e decepção, a cada realidade engolida, quem me consola são pensamentos suicídas. Não que eu esteja querendo me matar. Sim, que eles dão solução temporária.
"Não sou obrigada a viver tudo isso", "Não sou obrigada a me sentir mal hoje."

Se essas são minhas formas de conselho, vejo que é porque há conselhos, e se há é porque vejo saídas. Saídas pelas quais eu não tenho audácia nenhuma em trilhar, mas que para o pensamento vale alguma coisa. É confuso, não desistir e no entanto não se esperançar. O lugar que me caiba perto do perfeitamente talvez é agonizar, é passar cada dia meu, matar cada parte do meu corpo e mente, um dia...tão sádios...
Lembro de quando dias ruins eram compensados com velhos clichês mentais. Sinto falta das queixas, essa minha indiferença é que é desgastante. O que me acaba também é saber que eu não sei o quê é melhor para mim.
Simplesmente não sei o que me faria melhor, não sei. Talvez eu seja uma mocinha sem futuro. Ah! Eu sou sonhadora até...
Me sinto mal por ser tão jovem, tão velha, tão fraca, tão cheia de sorte, realmente? Não estou triste se pareceu, estou só narrando um pensamento de carona, parte da minha própria existência , nada tem haver com faltas, oportunidades ou carência. Parto do meu querer próprio pessimista, quem sabe, de pensar.
Tenho tudo, decepção comigo também. É insensato pensar assim, e ainda se considerar feliz? Só no mundinho das regras que é possível! E eu quebro tudo, até o que já tá quebrado. O negócio é que ninguém pensa no meio do poço, só no fundo, e na tampa.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Eu pensava que chuva era mais que água.

Uma das decepções da minha existência é a preparação temporal, o índice, que a chuva antes de cair, quase todas as vezes, faz.
Quando menina, janelas e portas batiam uma atrás da outra. "BÁ!-BÁ!",

Júlia, uma funcionária que por muito tempo trabalhou na nossa casa (e já citei algumas vezes em outros posts) gritava lá da varanda como um general: "É chuva!"
"É chuva?", perguntava-me sentada no sofá protegendo com as mãos as pernas dobradas, "Me ajuda a catar a roupa do varal meninas! Corre!",
e Nina e eu corríamos serelepes pulando e sentindo uma sensação tão perigosa e gostosa que mau respirávamos.
Para mim, era como se a chuva fosse trazer muito mais que simplesmente, água... Quem sabe um rei, um aviso, uma guerra, monstros ferozes e devoradores montados a cavalo, alguma coisa surreal, mística ou profética. É claro, a chuva nunca trouxe mais que água, e não é claro que até hoje ainda sinto profundos anseios de que ela trará. Fui enganada, é que a preparação das árvores, do vento, a mudanças da cor do céu, o ritual da roupa não poder estar lá e de fechar e tirar e tampar e calçar, com contagem quase que regressiva antes dos primeiros pingos chegarem me passou a ideia de que era um fenômeno mais pitoresco do que natural.
"Fecharam as janelas do quarto?" perguntava Júlia, com as roupas nos ombros e na cabeça, e eu imaginando que fossem os corpos feridos. "Sim!", respondíamos. Quando esquecíamos uma janela aberta, abríamos a porta dos quartos desesperadas e lá estava: A cama, molhada. "Ela está chorando?", pensava fechando a janela rápido. Quando essa falha acontecia, Júlia tirava a roupa da cama e dizia: "Quando o sol voltar, levem o colchão para fora."
Na minha cabeça éramos pessoas importantes, lutando contra alguma coisa.
A chuva era barulhenta, eu ouvia os telhados lutando firmemente contra ela. Via ela sendo derrotada quando ela descia pelas telhas, contava então, as cachoeiras de soldados dela, que se postavam em volta de toda a minha casa, como se tivessem nos cercando.
Quando a chuva vinha mais violenta, com trovão e raios, minha irmã me dizia:
"Não pise no chão sem chinelo. Não fale alto, nem deixe os ouvidos destampados."
"Por que?"
"Shiii! Quer ficar muda? Se você falar e trovoar na hora, fica muda, se não tampar os ouvidos fica surda, se não calçar os chinelos, um raio te pega."
"E o que eu faço?"
"Nada."
E ficávamos no sofá que na época tinha uma estampa divertida e almofadas quase do meu tamanho com figuras de animais selvagens.
Incomodada com a minha obediência e o silêncio e barulho só da chuva, Nina ia para o canto esquerdo do sofá, colocava a almofada na frente dela e dizia descontraída: "Nanda, faz de conta que aqui onde eu tô é minha casa."
(...)
Então eu entendia que "nada", apesar de ser nada, não nos impedia de começar a brincar com a realidade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Enfim egoístas.

Você me acendeu, porque me notou, só.


Notou só quando ri de você, quando assim se sentiu engraçado.


Nós, somos egoístas, por isso ardeu.


Eu ri porque você contava o que eu já pensei, o que eu já senti, o que eu já bebi.


Notei só quando falou de mim sobre você.


Notastes só quando ri de você pensando que eu ria para você.


E eu era você, mas você não era eu, apenas rimos.


Egoístas, porque nos notamos só assim.


Ardeu.

Teu fedor, minha maldade, essa carniça.

Existem pessoas ilusórias. Aquelas que você pensa que gosta, mas na verdade suporta. Aquelas que você tenta gostar, mas sempre, quase que por inteiro, ela te incomoda. Existem pessoas ilusórias. Que passam resquícios que te fazem auto implorar para um lado positivo, procurar uma boa característica, mas no final estraga, azeda, e por mais triste que seja, por mais maldoso que seja, e por mais mínimo que seja, você não consegue não exagerar, você se aproveita da falha, como se esperasse em preces inconscientes por isso, e você descarta tudo que tentou gostar desde o começo, tudo tão trabalhasomente forçado é evaporado e hedonista por ser algo que sempre lutou contra e a favor, e foi contrariado de vez. Pessoas que iludem, que você tenta, por se sentir mal, suportar.
Existem palavras contextualizadas que machucam, desconfia, ameaça a alma. Maneiras, erros, cheiros! Que você não gosta. Que você não tolera e ainda te dá medo por te provocar tanta implicância. Conversas, comentários, e provas que você não vê necessidade de fazer, que não te faz mais esperto ou sonso por não avisar ao mundo, nem glorioso por ter percebido. Existe diferença entre pessoas diretas e pessoas sem noção.
Pessoas diretas calculam o que vão falar com propósitos, impulsionam em dizer o que percebem com coragem, e convicção. Pessoas sem noção, falam sem medir consequências, impulsionam em dizer o que percebem com coragem também, entretanto, age pela emoção de chamar a atenção, de achar que pensar e falar, falar e pensar são iguais mesmo que os verbos mudem de posição. Se há mudança, desconfie!
Existem, (como no começo)pessoas simplesmente ilusórias. Te fazem de maneira piedosa procurar um lado positivo, uma boa característica, contudo, não é que no final estraga, é que desde o começo não cheirava bem.

Sobre Forma & Trans

Eu passo o tempo inteiro pensando no que eu fiz, ofendi, gostei. O tempo inteiro me procurando, me perdendo e tentando me achar para sempre, mesmo sabendo que é hipocrisia pensar dessa forma. O tempo inteiro me lembrando do que eu tenho que fazer, me amedrontando caso eu esquecer, me lamentando por não querer ser impulsiva, por gostar de pensar demais em tudo que seria nada para os rumores. Eu passo o tempo inteiro pensando nas pessoas também. Pensando nas que de manhã esqueci de pensar, nas que verei, e até nas que nunca vi. O tempo inteiro pensando no que eu não aprendi, no que eu tive sorte, nos meus exageros e até nos dramas.
Eu escrevo, leio, queimo a língua com o café, converso, pago, e enrolo o papel o higiênico pensando no sistema, no que eu não me decidi, no que eu ando me tornando, no que eu nunca vou ser. O tempo inteiro pensando se fiz todas as perguntas que me intrigam, se não me entreguei ao comum, se tudo que acho certo está demorando a ficar errado, e às vezes se outras pessoas gostam de ficar sozinhas, só pensando.
Horas e horas sem música, sem gente, sem chegar em casa e ligar a tv, eu procuro me encarar, sem ou com espelho. Parando de me evitar, a própria existência, não é possível que eu...
Eu gosto de me torturar, de supor, de desgraçar, de impressões e enganos, de propositar, calcular, e quando estou com preguiça brinco de destino . Eu passo o tempo inteiro remoendo o que eu não sei, e mesmo assim insisto em pensar. Ás vezes eu me magoou, ás vezes me parece desnecessário. Discuto o que passa por mim, ficho tudo, seja gestos, teorias ou comportamentos.
Você se perde, prende o xixi de tanto pensar, você se esquece das necessidades, você se interessa demais em descobertas mentais. Crio situações, tenho devaneios geniais, percepções amiúdes que me deprimem até o fim do dia, e outras que me enchem inusitadamente de viver o restinho da noite. Ás vezes, eu acordo no desisto e durmo no alterada. Outras, acordo alterada e durmo no desisto. Quando eu quero, eu não consigo. Porque meu querer depende de muitas coisas...Quando consigo, penso se quis...
Vivo no meio, no meio do começo, no meio do final, no meio da barriga, quase uma quarta feira.
Percebi que tem dias que sinto dor por todo mundo, outros cansaço, e tem uns que me transformam, o que não me tira de mim mesma ainda assim.
Eu falo sozinha e rio e água. Não estou falando com as paredes! É comigo mesma. E não é preciso estar velha para começar a conversar com você.
Por favor, não implica auto-suficiência, muito menos que eu esteja apaixonada por mim, é apenas dedicação.
É menos trágico, me parece, (é imaturo?) Devem ser formas...forma de viver, de se conhecer.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Lar, amargo lar.

Posso ouvir o barulho dos ratos. A pia pinga como se fosse um sinal, um sinal de algo chegando cada vez mais perto de mim. O motor da geladeira desparou do nada, parecendo até querer mostrar que existe.
Quando peguei no meu telefone, ele fez um barulho e apagou feito um balão espocado, sem bateria.
As cortinas mexeram levemente, respirei desconfiada e olhei para a parede, a largatixa comeu o mosquitinho no meu encontrar dos cílios, senti quase em pânico que a casa estava viva...

Estralos, nos cômodos em que eu não estava.

"Desliguei as luzes por onde não estava." Era isso. Vingança da casa, pura vigança.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Enredo de um sabor perdido.

As impressões... são as únicas que restam. Impressão de que você está feliz, está errado, está bonito, está mudado. Ainda é você. Ainda existe você no seu jeito de ser. O que me impressiona é a impressão de que um dia vamos nos reencontrar. Claro que o desencontro, de maneira nem pensada, trouxe nosso silêncio e o começo da fome. Não sabemos que sabor perdemos, e vivemos, e vivemos também profundamente a espera do meio, porque só o meio trará o fim. Como é insensato, nosso silêncio finge e deve torna-se normal. E...quando há distância tudo se torna sensato. Se falássemos, era pedir para sofrer. Quem sabe sofremos?Inconscientemente. Ainda acho que é melhor sermos inconscientes que inconsequentes.

O começo da nossa fome talvez trouxe graça no tempo, para ficarmos cada vez melhores um para o outro, dois, para um grande dia, trouxe sede na saliva para distrair o esperar. E se for coisa da minha cabeça? E se essa estória for mais minha que sua? (...)
De qualquer maneira, permanecerei em silêncio, com fome, e quando pintar uma impressão, é porque ainda existe você no seu ser. De maneira nem pensada, são as únicas coisas que restam, não sabemos que sabores perdemos, e o meio sensato será saber, o meio sensato é o que traz o fim. Mesmo que tenha mal começado.

No quintal daqui de casa.

Alexandre, nosso vizinho, amigo de Eduardo, (meu irmão) diz:
-Ô Dudu! Eu acho que ninguém sabe de tudo!
Eduardo:
- Ô! É nada...e Deus? Hein? Deus deve saber.
Maria Luiza, a prima, retruca:
-Ô, nem Deus sabe de tudo Eduardo!
Alexandre:
-Se ele não souber, a mãe dele deve saber.


(Eu precisava registrar essa conversinha de criança. ;D)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Dos pregadores a maldição.


"Malditos sapatos!", chegou em casa e os retirou como se jamais fosse calçá-los outra vez. As meias, eram responsáveis pela a inusitada volta aquela manhã. Foi a padaria, comprou flores na esquina, comeu o sonho antes de chegar em casa, reparou a amarelinha na calçada, e sentiu dor nos pés.
Ligou o som, e ouviu uma música antiga que lhe trouxe saudades desconhecidas. Arrumou a calçinha embolada, e grosseiramente retirou as cortinas da janela para ver o que se passava na rua, que acabara de ver, que acabara de querer ver algo a mais. Nada de inusitado, nem a pidança do estômago. Passou pelo banheiro, fez careta para o espelho, passou pela sala, ligou a TV, mudou o canal, desligou a TV, passou pela varanda e reparou as roupas estendidas.
Os cílios superiores pressionaram os inferiores três vezes dando o sinal. Para que fizesse seus próprios olhos perceberem que não basta só eles quererem dormir, ela os fechou e se sentou ouvindo a música querendo lembrar-se, "Por que era tão bom escutá-la?"
Não ousava mexer mais nenhuma parte do corpo.
Mais cedo, ela viu o vento fazendo as pernas pretas se mexerem no varal, ficou tão surpresa com as pernas da meia dançando que resolveu usá-las. As meias agora estavam livres dos pregadores, e estavam presas as pernas, foi por isso que ela se vestiu, descascou uma banana, se sentou depois de jogar a casca no lixo, e pensou no que poderia fazer calçando os sapatos...

malditos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tarde demais.

Meu pai há dois dias só falava no doutor, tanto sobre sua casa aconchegante quanto na sua personalidade cativante.
Não sei se por conta disso, mas antes mesmo de conhecê-lo eu gostei do que foi me contado sobre ele. E por conta do simplório da ideia de reunião entre amigos, que são convidados a dormirem, comerem, beberem, recitarem e acordarem durante alguns dias na sua casa, em troca do prazer da consideração, eu me lembrei de cinco bonecas adultas que eu tinha e sempre as reunia com suas famílias de plástico imaginando um dia ser assim, e como ele, eu me vi.
Nós chegamos umas onze da manhã, fomos abordados por todo o pessoal que lá estava como se muito nos admirassem. O Dr. Murilo logo recitou rimas agradáveis e bem humoradas, no começo, pensei até que fosse para provar sua boa memória, mas depois percebi que é como beber água.
Quando eu me sentei, ele passou por mim e com o polegar e o indicador encostou em mim. No meio do que separa meus olhos em dois, aquela distância que abaixo fica o nariz e acima a testa. Fiquei super curiosa com o gesto, acho que ninguém nunca deu importância a essa região do meu rosto e creio que devo tê-la tocado quando o cabeleireiro corta minha franja, para uma coçadinha, raras vezes. Ele se sentou do meu lado e ficou conversando com meu pai estórias (ou mentiras, segundo alguns dos sorridentes amigos reunidos) interessantíssimas.
"O tempo nos marca com tinta, tinta branca nos cabelos." ele falou, me fazendo reparar o branco dos cabelos dele. Contou sobre seu passado, sobre o regime militar, e quando fazia partos na cidade de Carolina, falou que foi confudido com gente do partido comunista, que vai ganhar idenização por isto agora, e que muitos médicos foram assassinados na época. Perguntou se estávamos a vontade, ofereceu bebida, falou de Lampião. Aliás, vi que ele é louco por figuras históricas.
O almoço foi uma delícia, o sorvete no final caiu bem, e eu e minha irmã fomos para o chalé que tinha redes e camas ao ar livre. Conversar, é o que mais sacia saudade. E lá, começamos conversando tudo que duas adolescentes normais não teriam muito interesse, desconfio até que a Nina me olhou estranho, às vezes como se auto conhecesse no que eu dizia, outras em como deveríamos aproveitar do que poderíamos ser de bestas nessa fase da vida. Nos atualizamos uma da vida da outra, dos sonhos e decepções, das neuras e divagações, das pessoas que temos em comum e as que agora não temos.
Papai nos chamou para vermos com o pessoal, o museu do Dr. Murilo. Lá havia armas, punhais, queixadas, restos de natureza petrificada e sugestivas, fotos, uma carta de Guimarães Rosa, livros com aquele cheiro de papel guardado e pedindo para serem corrompidos.
Tinha também pedras, o Dr. me puxou pelo cotovelo, e disse: "Você. Que é uma menina curiosa, abra sua mão." E eu abri. Colocou uma pedra redondinha, marrom, lisinha e disse: "É uma pedra quase perfeita, encontrei ontem no rio." ("Não sabia que as pedras também queriam ser perfeitas." refleti comigo mesma.)
Achei fascinante, e ele sorriu do meu "olha" impressionada como se entendesse toda minha essência de sensibilidade para essas coisas. Mostrou outras pedras e no formato delas me revelou o que via, em cada interpretação dele, eu sorria mais admirada porque ligeiramente foi inusitado encontrar alguém tão perto do que eu faço também.
"O que você vê nessa?" ele me disse entregando outra pedra. Tentei interpretá-la, virei-a e quase que imperceptíveis, vi sinais dourados no cantinho, porém, disse "Hãm...não sei."
"Olhe, esses sinais, são sinais de ouro.", não dei muita importância e atraída pela parede perguntei "Essa arma está carregada?", "Não, não..." respondeu percebendo meu interesse, e me entregando o revólver na mão, "É de 1945. Matou muitos judeus por alemães nazistas."
(Imaginei aquelas bicamas e uniformes listrados) quando firmei minha mão no revólver senti uma enorme sensação de poder e apontei para papai que quando pegou comentou a sensação também. Nina tirou fotos, e por curiosidade botei o gatilho na cabeça.
"Opa, na cabeça só se o gatilho for virado para baixo." Falou o Dr. me tomando a arma como se desejasse a vida por mais tempo.
Isso me fez pensar que, talvez, aos 70, nós nos aproximamos, nem que seja rastejantes, ao viver, e já que tudo se é percebido com mais maturidade, pude sentir que estar vivo ainda é melhor que ser morto.
Ele saiu mostrando as pessoas outras relíquias e eu fui para a estante dos livros com a cabeça torta para ler os títulos rápidos.
A mulher dele (inclusive a oitava, pois ele já teve muitos casamentos) distribuiu xícaras de café para todos, dessa vez não beijei a xícara ansiosa pelo café como costumo fazer e queimar a ponta da língua, eu esperei até poder não me machucar.
O mais estranho e incrivelmente interessante é que me senti atraída por tudo aquilo, e por todo aquele. É que daquela pele manchada e marcada pelo tempo, aqueles olhos azuis lacrimejando através dos óculos e os bigodes cinzas cujo lábio superior jamais foi visto por mim, eu vi alguém tão meticulosamente lá dentro cheia de graça, de ciência, de fluxos de comportamentos e criatividade certeiros aos meus, que até o humor sadio dele me deixou injustiçada. Injuriada. Apaixonada.
Setenta. Sempre gostei do sete, mas nunca pensei que acompanhado do zero me traria sensações de conhecer tão bonitas e ardentes. Nos despedimos com um abraço e uma pergunta,
" E...você anda fazendo?"
"Jornalismo."
e posso dizer que por dois longos segundos, me transitei a uma sensação de desencontro covardemente imensa.
Poderia ter sido tão perfeito... entretanto, sobrou o impossível - e ali interligados- entre nós.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Uma cabeça no travesseiro.

Perdi a hora. Perdi o paladar. Perdi a caneta. Perdi a emoção. Perdi a manicure. Perdi a fé. Perdi as moedas. Perdi meu umbigo. Perdi um par dos meus sapatos. Perdi vocês. Perdi na estação. Perdi o aceno. Perdi o medo. Perdi o gol do meu time. Perdi o número. Perdi a resposta.

Perdi na loteria. Perdi aqueles sonhos. Perdi a carona. Perdi a ousadia. Perdi de propósito. Perdi aquela coleção. Perdi aquele final de semana. Perdi o que era importante. Perdi...por isso não perdi o sono.

"Me deram um nome e me alienaram de mim." (Clarice Lispector)

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Fernanda Alcântara Alencar
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"De maneira diferente, sinto e escrevo, escrevo e sinto."
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